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No texto do papel, nem sempre vale o que está escrito

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No texto do papel, nem sempre vale o que está escrito


Consta nos registros mais remotos que a invenção do papel feito de fibras vegetais é atribuída aos chineses. Eu poderia jurar que o papel foi invenção dos egípcios. Mas não foi.Os povos dos faraós produziram matérias-primas famosas e as mais próximas do papel: o papiro e o pergaminho.O primeiro, o papiro, de material mais popular, apesar de sua fragilidade, permitiu a produção de milhares de documentos que chegaram até nós.O pergaminho, material muito mais resistente, era feito de pele de animal, geralmente carneiro, bezerro ou cabra e tinham um custo muito elevado.Produção de papel em larga escala e a um custo baixo, era a demanda de uma sociedade escravista e tributária.

Engraçado, outro dia uma amiga que voltava do Egito me trouxe um souvenir em folha de papiro com cena estampada da antiga civilização. Entusiasmado com a escrita, reparei na trama do tecido o quanto o papiro é frágil, apesar de ser muito forte o registro da cena contida nele. Dei-me conta do que seria da racionalidade ocidental se o oriente não inventasse a base para a impressão e registro da História. Como ficaria o cogito cartesiano “penso, logo, existo”? Razão sem a materialidade da escrita é memória e a história do ocidente sem o papel teria tomado outra dimensão. Bem dita seja essa contribuição dos chineses e egípcios para a humanidade.

Mais tarde, no período da História Moderna, o papel foi introduzido na Europa pelos árabes e com a invenção da imprensa por Gutemberg, as ideias, passaram a circular. O marco desse momento foi a tradução da Bíblia para as principais línguas nacionais, proporcionando o aumento de consumo do papel. O pensamento cristão-católico criou asas e através dos livros conquistaria terras de todo o mundo, nas águas mais distantes do atlântico ao pacífico.

Penso na figura de Pero Vaz de Caminha firmando a nossa certidão de batismo com a sua polêmica carta ao rei português D. Manuel. Sem o papel seria impossível falar das coisas da terra do Brasil, da descrição das nossas riquezas, da abundância da natureza e das vergonhas (genitálias) das índias à mostra, descritas por ele como exuberantes.

A primeira fábrica de papel no Brasil surgiria alguns séculos mais tarde quando da vinda da família real portuguesa no século XIX. Ela foi construída no Rio de Janeiro, entre 1808 e 1810 por Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva.

Tantas outras fábricas de papel surgiram no período. E haja papelada para encobrir a mazela da escravidão. Títulos de posses, de compra e venda, de registros das “mercadorias”, das notícias de fuga e promessas de pagamento pela captura. Papel para escrever leis para empurrar com a barriga a decisão de extinguir o tráfico de escravos, libertar os seus filhos, alforriar os mais velhos, enfim, letra morta das elites escravistas em sua estratégia de ganhar tempo. Era a abolição, lenta e gradual da escravatura, chaga da nossa escrita que por pouco não adentraria o século XX.

Para que tanto desperdício de papel se apenas uma única folha, da mais ordinária que fosse, bastaria para garantir a liberdade de milhões de seres humanos? Desde o tráfico internacional, inventado pela Europa, a chegada no Brasil, foram mais de três séculos em que homens e mulheres desterrados, produziram com dor e sofrimento as riquezas do Brasil.

Outro dia um amigo fez uso de uma brincadeira politicamente incorreta me dizia que a Princesa Izabel escreveu o texto da lei áurea de 1888 em papel lustro e lápis preto. Passou o dedo na folha, apagou o escrito. Mal sabe ele que os negros com muita luta, trabalho, estudo e poesia, estão a escrever um novo texto da história das relações raciais no país.

Sei que o historiador ao contar um conto, aumenta-se um ponto e como o espaço é curto, não se pode dizer tudo, caso haja desejo de saber mais sobre o tema, na próxima postagem do blog, farei outras reflexões sobre a representação social do papel, ou melhor, sobre fatos escritos no papel.

Até lá

Roberto Carlos Santos  
Professor de História e Mestre em Educação

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